Quem não berra não é ouvido
25/04/2009-08:47:46
O ano era 1886 na industrializada cidade norte-americana de Chicago. Ser um operário daquelas fábricas era jogo duro na época. As jornadas de trabalho iniciavam cedo da manhã e se estendiam até bem tarde da noite.
Os salários, em contrapartida, não chegavam nem perto de todo o esforço empregado pelos trabalhadores.
Até que eles se deram conta de que isso era quase uma escravidão e no dia 3 de maio milhares se juntaram em uma manifestação para reivindicar uma jornada de 8 horas diárias. Neste mesmo dia houve um pequeno levante de uma parte dos trabalhadores que acabou em confusão com a polícia. O enfrentamento resultou na morte de alguns manifestantes.
No dia seguinte, outro protesto foi realizado contra as fatalidades ocorridas no dia anterior e, desta vez, uma bomba jogada por pessoas não identificadas acabou por matar sete policiais.
Como reposta, os agente abriram fogo contra a multidão e mais doze trabalhadores foram mortos. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.
Nesta mesma época, manifestações semelhantes aconteceram em outros locais do planeta.
O tempo passou e a luta continuou, até que em certo momento os patrões foram obrigados a ceder, forçados pelo apelo popular.
Porque escrevo tudo isso? Para dizer que não há conquistas sem luta e engajamento das classes. E não tem nada a ver com mortes e ações violentas, isso é só para frisar que por trás de qualquer conquista existe uma dose de sacrifício.
Legisladores, prefeitos, governadores, presidentes, patrões e qualquer outro cargo de comando só levam a sério e se dedicam aos apelos populares quando estes notam que determinada classe possui força política.
Os que não se organizam e pressionam, nada conseguem. Ninguém irá prestar atenção em seus problemas. Quem não berra não é ouvido.
O que acontece no Rio Grande do Sul no caso das áreas de pesca e surf é exatamente isso. Há quase trinta anos os surfistas são uma minoria que assiste calada os seus semelhantes morrerem enredados em cabos e redes.
Uma minoria ainda mais diminuta aos olhos dos donos das canetas oficiais.
Os surfistas discutem e extravasam sua indignação em rodinhas de conversa na beira da praia ou mais na noite, tomando umas.
Nossos protestos acontecem no outside, lá fora, tão distante que nenhuma voz é ouvida.
Qualquer manifestação contra essa atrocidade que vem dizimando jovens e suas famílias, reúne mais pessoas que uma partida de xadrez. No máximo, todos os surfistas presentes em um protesto cabem dentro de uma Towner.
Isso é lamentável e triste. Nosso levante é do tamanho de um quebra-molas acahatado e, nesta levada, nunca conseguiremos nada.
Você aí que está lendo este texto, já participou de alguma manifestação em defesa da regulamentação das áreas de surf e pesca? Já? Você era um daquela meia dúzia? Parabéns!
Agora, se você nunca se interessou em participar de algum protesto e acha que isso não adianta nada mesmo, fique sabendo que é por pessoas como você que até hoje pouca coisa foi conquistada.
Todos, absolutamente todos os surfistas são um pouco responsáveis por cada uma das 46 mortes ocorridas nestes últimos 26 anos.
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Carta ao Presidente da Federação Gaúcha de Surf
14/04/2009-11:08:26
A atual gestão da Federação Gaúcha de Surf iniciou seu trabalho pouco tempo depois da inauguração do Clube Surf. Lembro bem disso. Até então, a movimentação do surf no estado estava em baixa em termos de eventos. O Circuito Gaúcho Amador rolava de forma obscura em algum local do litoral e só mesmo os atletas mais ligados ficavam sabendo.
Para os profissionais, a finada Taça Trópico era o alento de final de ano.
Uma nova gestão surgia como uma esperança para novos tempos.
Lembro de ter ido visitar os novos diretores a FGS na antiga sede da entidade no CETE, no bairro Menino Deus, naquelas salinhas ao lado da pista atlética, onde está representada mais de uma dezena de esportes, do Judô ao Boliche (boliche é por minha conta, nem sei se existe uma associação para eles).
Cheguei lá de moleton, calça jeans e tênis e fui recebido pelos então recém empossados presidente e vice, Orlando Carvalho e Nelson Guarda. Eles estavam de terno e gravata! Fiquei subestimado. Confesso que até envergonhado. Mas também admito que saí daquela reunião com uma esperança.
O entusiasmo daquela dupla me contagiou. Novos planos, novos horizontes nasciam daquele brilho nos olhos. O detalhe do terno e da gravata, inicialmente agressivo na comparação com o life style surf, me pareceu ótimo. Transmitiu-me a seriedade que até então faltava na busca pela verdadeira importância dada ao surf gaúcho.
Pensei: “Esses caras podem sentar numa mesa de reunião sem constrangimentos. Quem venha o secretário de esportes, que venha a governadora, o presidente. Que venha o Rabitt Bartholomew, que venha a Rainha! Que venha quem quer que seja! Yes, nós temos engravatados!”.
O tempo não me enganou por completo. A atual gestão ressuscitou o Circuito Gaúcho Amador. Buscou parceiros fortes para viabilizar as etapas do Profissional. Anda distribuindo grana boa nestes eventos. O que é uma grande coisa e deve ser festejado.
Mas há algo de podre no ar, que não é desta gestão nem da última nem da primeira e nem até de quando não havia uma organização oficial do surf no Rio Grande do Sul. A morte de nossos surfistas em redes de pesca.
O fim estúpido da vida de Lucas Boeira Dias, 22 anos, no sábado de aleluia (que ironia!), que morreu afogado depois de ficar preso em uma rede pesca, comprovou que esta carnificina restrita ao nosso estado continua sem dó, sem assistência, sem reparação, sem importância.
Vamos deixar as ilusões de lado. A Federação Gaúcha de Surf por si só não pode resolver isso. Nem base legal ela tem. A FGS é só a FGS, apenas uma entidade de um esporte amador, não mais que isso aos olhos de quem não é surfista e vive disso.
Mas tenho uma sugestão, humilde, evidentemente:
Presidente Orlando Carvalho: Convença os patrocinadores do Circuito Gaúcho, Amador e Profissional, a entender que suas marcas teriam um valor histórico se as verbas empenhadas na realização de campeonatos fossem redirecionadas a uma solução para os pescadores.
Esqueça qualquer outra ação de sua gestão que não seja a de solucionar este problema. Destine seus dias e noites para isso.
Combine com o governo e legisladores a óbvia gravidade desta situação e busque mais recursos. Proporcione novas tecnologias de trabalho às comunidades pesqueiras do nosso litoral. Barcos, novas ferramentas de trabalho e tirem-nos desta atividade artesanal e assassina.
Barcos com logotipos do banco estadual, da companhia de energia elétrica, de água...
Depois, faça um grande estardalhaço na mídia. Reuniões com 20 fotógrafos, entrevistas nas rádios, TVs, sites.
Tenho certeza que depois disso, presidente Orlando Carvalho, seu nome será eternizado, ovacionado, santificado.
Mas antes de tudo, e que fique muito claro e registrado, sem ressalvas ou furos de legislatura, que esta pesca arcaica, pré-histórica e letal, seja definitivamente proibida no litoral do Rio Grande do Sul.
E proibida quer dizer prisão sem fiança, sem perdão, sem nada!
É preciso criar a mentalidade que, se este tipo de atividade pesqueira continuar, o surf gaúcho estará condenado a morte.
Meu filho não será surfista enquanto uma solução não for definitivamente dada.
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Tem gre-nal que tira qualquer um do sério
04/03/2009-09:16:12
E então o cara chega no outside e pergunta para o Cilinho, que estava lá há umas 2 horas.
- E ae, tem onda?
- Não sei, sou cego.
- Hein?
- Sou cego. Não posso te dizer se tem onda
- Ah, tá!
...um minuto depois:
- Cara, desculpa ae, mas tô bolado com essa história. Tu é cego mesmo?
- Ceguinho
- Não enxerga nada?
- E cego enxerga?
- Não.
- Tá respondida tua pergunta então?
- Tá, quer dizer... Pô brother, acho que tu ta zoando na minha.
- Ô meu, eu já tava aqui. Aí tu chega, me pergunta se tem onda. Tu também é cego? Tu não enxerga? Tu mesmo não pode ver se tem onda?
- Ah, ehehehehe... Entendi, tu tá brincando.
- Brincando o quê, meu irmão. Eu sou cego. Tu acha que eu ia brincar com uma coisa dessas?
- Bah, desculpa ae, mas é estranho. Um cego aqui sozinho no outside... Como é que tu conseguiu chegar?
- Vem cá! Por acaso eu disse que era aleijado ou tetraplégico?
- Não.
- O que eu disse que era mesmo?
- Cego.
- É bem diferente, né?
- É. Acho que é. Pô meu, sei lá, que loucura...
- Cego, já disse.
- Tá, tá, tá bom meu. Bah, que viagem maluco. Tchau, vô nessa. Sair do teu lado...
Cilinho não era cego e muito menos mal humorado desse jeito. Problema é que não é fácil ser gremista numa segunda-feira seguinte a um gre-nal daqueles. Que m...
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Contos Surfisticos
04/02/2009-08:53:39
Há alguns anos, uns dois por aí, eu mantive uma coluna aqui no Clube Surf chamada ‘Contos Surfísticos’. Eram ficções envolvendo pessoas, relacionamentos e surf com a dose de humor que minha capacidade permite.
Como já faz algum tempo que estes contos saíram dos arquivos do site e não podem ser mais lidos, um amigo sugeriu que reeditasse alguns deles aqui no blog, já que desde então o Clube Surf deu um salto em acessos e muitos novos leitores não tiveram a oportunidade de ler.
São textos relativamente longos para o formato blog, mas decidi seguir o conselho.
Então, para quem ainda não leu, segue abaixo o primeiro desse revival. Espero que gostem
Magaia e Soraia
O Magaia era um cara iluminado. Nasceu com todos os requisitos necessários para se obter o sucesso nas diferentes áreas da vida. Os deuses se reuniram numa grande convenção e escolheram alguns poucos espíritos que encarnariam com todas as boas qualidades para se viver e se dar bem nesse mundo. Não se sabe ao certo quantos e quais os indivíduos que foram agraciados com essa sorte, talvez o Reinaldo Gianechini e o Kelly Slater tenham sido dois deles, mas o Magaia com certeza foi.
Nasceu em berço esplêndido, era extremamente inteligente, dono de uma elegância acima da média, gente fina e, além de tudo, o cara era bonito. Tanto que até aqueles homens mais durões não podiam negar que se tratava de um ser acima da média. Ir para a balada com o Magaia tinha os seus prós e contras. Era legal porque chamava a atenção da mulherada e era ruim porque não sobrava nada para ninguém. Qualquer um ao lado do Magaia chamava a mesma atenção que um poste, sem luz é claro.
Nenhum adjetivo ruim se encaixava numa definição a respeito dele. Não havia nada de mau para dar uma compensada naquela vida perfeita. No surfe, o cara simplesmente arrebentava. Quando estava com a prancha no pé, a impressão que se tinha era de que ele não tinha nascido, mas dropado. Não havia ninguém naquela época que surfasse como o Magaia.
Só havia uma coisa que não dava para entender: ele só gostava de mulher feia. Quanto mais mocréia melhor. Para o Magaia, a Luise Altenhofen era um tribufú, mulher mesmo era a Amy Winehouse. Está certo que gosto não se discute, mas que essa preferência dele pelas mulheres desprovidas de beleza estética era intrigante, ah, isso era.
Aquele sortudo poderia ficar com quem ele quisesse num estalar de dedos, mas era com aquela amiga mais feia da mulher mais linda da festa que o Magaia iria se afeiçoar no final da noite. Os amigos, em segredo, faziam apostas para ver quem adivinharia com qual mulher ele ficaria. Quem achasse a mais feia e improvável para maioria dos homens, com certeza seria o vencedor.
Era engraçado que a preferência do Magaia era sincera, ele realmente gostava delas e era até comovente vê-las completamente extasiadas e não acreditando que estavam ficando com uma pessoa totalmente fora das suas realidades.
Esta fama era conhecida por todos, a de gostar de feias, bem como a de que ele, apesar de surfar tão bem, nunca querer ter participado de nenhuma competição. A galera toda implorava para que o Magaia corresse algum circuito. Tinham a certeza de que, com todo aquele talento, se tornaria um grande vencedor e poderia ser um top nacional.
Mas ele repudiava as competições e dizia que o surfe não poderia ser objeto dessas coisas mundanas. O surfe era o seu oratório, a sua linha direta com o criador.
Porém, algumas coisas mudaram, isto é, uma mulher chamada Soraia fez com que Magaia desvirtuasse de suas convicções e isso mudaria a sua vida para sempre.
Um dia, bem cedo da manhã, Magaia pegou a sua prancha e foi dar o banho no lado do píer de Cidreira como sempre fazia. Chegou na praia e largou a sua bóia na areia para fazer um alongamento. Estava tranqüilo, sentado no chão com as pernas esticadas e com as mãos segurando os pés quando uma voz feminina o tirou a concentração.
- Será que o repuxo está forte hoje?
Magaia foi levantando a cabeça aos poucos e, conforme os seus olhos foram registrando aquela imagem, ele teve a certeza de que encontrara a mulher da sua vida. Primeiro foram os pés, com aquele dedo do meio maior que o dedão. Depois, passando o seu olhar pelo resto do corpo como um scanner, viu aquelas pernas com celulites, nem muitas nem poucas, na dose certa, a barriguinha acentuada, os seios levemente caídos – que peitinho durinho é coisa de mulher sem graça – e finalmente o rosto: boca de gaveta com dentes inferiores projetados para frente, um narizinho bem guinchado e olhos pequenos e bem próximos um do outro.
Enfim, uma sereia. Para o Magaia, evidentemente.
Meio que sem jeito e completamente desorientado pela paixão arrebatadora, ele disse que não havia repuxo, apesar do mar estar uma pouco agitado. Sem perder tempo, puxou assunto perguntando se era a primeira vez que ela ia a Cidreira e o seu nome. Ela respondeu que sim, era a primeira vez ali, agradeceu e se apresentou.
- Meu nome é Soraia. E o seu?
- Alexandre Magalhães, mas pode me chamar de Magaia.
- Então, obrigada, Magaia. Nos falamos por aí.
E saiu caminhando desengonçadamente, quer dizer, graciosamente aos olhos dele. Não houve surfe naquela manhã, pois os pensamentos de Magaia estavam em Soraia, a mulher mais feia do meridional brasileiro.
Chegando em casa, Magaia se arrependeu de não ter puxado mais conversa para descobrir onde poderia achá-la ou até mesmo marcar um encontro. Voltou à praia na tarde só para procurá-la, mas não teve sucesso e ficou aterrorizado com a possibilidade de nunca mais encontrá-la. À noite, dispensou uma balada com a galera só para ficar caminhando pelo calçadão na tentativa de esbarrar com Soraia.
A persistência é uma virtude, e Magaia foi recompensado. Quando estava passando na frente de uma sorveteria, avistou-a na fila do buffet e decidiu que agora não perderia a chance de conquistá-la. Chegou como quem estava passando ali por acaso e provocou um esbarro. Foi o suficiente. Ela o convidou para tomar um sorvete, saíram para caminhar e conversaram muito. Descobriram que eram muito parecidos em muitas coisas. Nesse primeiro encontro, Magaia não quis forçar a barra e tentou não transparecer que estava completamente apaixonado. Combinaram novo encontro para a noite seguinte em um lual que aconteceria na praia. Despediram-se como bons novos amigos e foram cada um para as suas casas.
Soraia era uma mulher competitiva. Adorava pódios e pessoas que subiam neles, no lugar mais alto, se possível. Achava que isso mostrava a personalidade de alguém. Quem se esforçava e tinha talento para chegar entre os primeiros, de alguma forma mostrava que tinha fibra e convicção. Essa era a qualidade que mais a atraía nos homens. Ela tinha consciência de que não era nenhuma beldade, mas isso não a incomodava mais como antes. Havia superado isso. Foi difícil nos primeiros anos da adolescência, mas agora esse problema estava resolvido. Pensou nisso enquanto estava indo para casa depois do suposto encontro por acaso com o Magaia. Ele era muito bonito para se interessar por ela, mas com certeza ficou um clima.
Magaia estava radiante naquele dia. Acordou cedo e foi para o mar. As ondas estavam perfeitas ao lado do píer. Um metro e formação excelente. Destruiu e deixou os amigos boquiabertos. Nunca viram ele surfar tanto. Logo desconfiaram que aquela performance só poderia ter sido inspirada em alguma fêmea daquelas. Daquelas que o Magaia gostava. E tinham razão. Logo mais à noite, eles teriam aquela visão do inferno.
Quando a noite chegou, todos os caminhos levavam para a beira da praia. Toda a galera que se ligava em surfe foi curtir o lual, surfistas e simpatizantes. A festa já era tradicional e todos tinham os seus motivos para ir, mas dessa vez o Magaia tinha um em especial: conquistar a mulher da sua vida. O cenário era perfeito, noite agradável e sem vento, uma lua gigante que iluminava toda a praia, boa música e um clima propício ao início de uma linda história de amor.
Chegando lá, logo mirou para todos os lados em busca de Soraia e assim que a avistou foi ao seu encontro. Quando os amigos viram o motivo daquele surfe inspirado da manhã, o consenso foi unânime. O Magaia havia se superado. Depois de um tempo de conversa, ele decidiu que seria a hora de dar a investida, falar tudo o que estava sentindo e pedi-la em namoro. Só não iria propor-lhe casamento para não assustá-la, pois vontade para isso tinha. Quando ele ia dar início à dança do acasalamento, Soraia olhou por cima do seu ombro, abriu um sorriso de satisfação, pediu licença e recebeu com um beijo apaixonadíssimo o cara que se aproximara. Ela o apresentou como sendo o seu namorado, e o mundo de Magaia desabou.
Nandinho, o namorado de Soraia, era um surfista local muito conhecido. Havia anos que ele era o campeão da associação local e por dois anos consecutivos havia conquistado o Estadual. Todos concordavam que se ele tivesse um bom patrocínio, com certeza se daria bem em vôos mais altos. Estava sempre participando de campeonatos e vencendo todos. O cara era um monstro.
Um monstro em todos os sentidos. O Nandinho era feio demais. Um erro genético. Os dois, a Soraia e o Nandinho, realmente combinavam.
Magaia e o namorado da Soraia já se conheciam e se respeitavam como surfistas. Eles eram, sem dúvida, os melhores da região. Mas as semelhanças acabavam aí. Um era horrendo e o outro, bonito; um era pobre e o outro, rico; um era competidor e o outro, free surfer; e, para desespero do Magaia, um tinha a Soraia e o outro não.
Magaia deu uma desculpa e saiu de fininho. Estava arrasado. Foi para casa e não conseguiu dormir. Passou a noite inteira chorando. Nenhuma outra mulher havia causado esse vazio dentro do seu peito. Ele, que sempre teve tudo o que tinha e havia conquistado todas as mulheres que desejara, estava agora de quatro. Mas isso jamais iria fazer com que ele desistisse. Lutaria pelo seu amor e para isso faria de tudo. Pensando nisso, teve uma idéia. Passaria por cima das suas convicções, tomando uma atitude que até então seria impensável. Iria se inscrever no aberto da associação que aconteceria logo mais e que, com certeza, tinha como principal favorito ao título o Nandinho. Magaia bolou uma forma inesquecível de se declarar a Soraia, mas para isso teria que obrigatoriamente ser o campeão. Conquistando o troféu, roubaria a feiosa do feioso.
Na manhã seguinte, os amigos ficaram surpresos com a decisão de Magaia em participar da competição. Nem passava por suas cabeças que aquela atitude tinha o amor como o motivo exclusivo. As chaves pareciam ter sido organizadas sob encomenda para que eles, o Magaia e o Nandinho, só se encontrassem numa possível final. E foi o que aconteceu. E quem viu diz que dificilmente haverá uma outra decisão como aquela. Onda a onda, ponto a ponto até o segundo final. Por uma diferença mínima, Magaia venceu Nandinho, tornando-se o grande campeão daquele verão.
Na entrega dos troféus e prêmios, no degrau mais alto do pódio, Magaia colocou o plano em prática. Uma atitude ao mesmo tempo corajosa e bonita. Ofereceu o título a Soraia como prova de um amor que estava sendo revelado a ela naquele momento. Foi a maneira mais criativa e rápida que ele havia encontrado para conquistar o seu grande amor. Nandinho sabia da sua condição de homem feio e por isso achava que estava seguro com Soraia, igualmente feia, mas agora com aquela declaração pública de amor do carinha mais bonito de Cidreira feito a sua namorada, viu que a havia perdido. Não tinha chance contra ele. Quando Magaia desceu do pódio para entregar o troféu a amada, ele aprendeu que nem tudo pode ser perfeito na vida. Ela agradeceu a dedicatória e ao mesmo tempo chamou Nandinho para o seu lado e disse:
- Você é uma pessoa legal, Magaia, mas eu gosto de homens feios e nisso você nunca vai superar o Nandinho.
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Na companhia do Peregrino
16/12/2008-21:51:12
A busca da essência da vida espiritual através do surf é o sonho de muitas pessoas e a realidade de algumas. Cair na estrada e experimentar culturas ímpares e inimagináveis é um desejo coletivo de uma comunidade que tem no soul surf uma filosofia de conduta da vida.
Abrir horizontes e decifrar as enigmáticas facetas do mundo vistas da ótica privilegiada da onda, mostra o mundo místico e o universo particular de quem faz da prancha seu oráculo.
Quando o surf no Brasil ainda engatinhava e era praticado por “meia dúzia de gatos pingados”, o jovem Sidney Tenucci, o Sidão, correu atrás do sonho e se jogou em ondulações desconhecidas pelo planeta. Buscou a essência e acumulou impressões de points do mundo inteiro.
Com o tempo, Sidão se tornou um surfista errante que desbravou ondas e se relacionou com a cultura e comportamento dos povos de 50 países, e o acúmulo contínuo de tantas experiências transformaram histórias em estórias.
Foi assim que nasceu o “Surfista Peregrino”, título do primeiro livro de ficção produzido no Brasil cuja temática é o surf e o beach lifestyle.
Lançado pela editora Cosmmos, a publicação de 126 páginas traz para o leitor a enriquecedora bagagem adquirida pelo 'Surfista Peregrino', o personagem fictício criado por Sidão Tenucci, que por sua vez nada mais é que o alter-ego do escritor.
Misturando contos e crônicas, a obra usa a experiência das viagens do autor como fonte de inspiração para as percepções do peregrino. Tantas incursões soul surf renderam até passagens proféticas, como o capítulo que descreve em detalhes um tsunâmi na Ásia, publicado no site Waves e datado exatamente 26 dias antes do fenômeno ocorrido em 2006. De arrepiar
Eu li a obra numa sentada e recomendo. É uma viagem alucinante, cheia de perspectivas únicas que vagueia por muitos pontos distintos.
Acima de tudo, ‘O Surfista Peregrino’ é uma enriquecedora experiência literária.
Vale a pena!
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Só nós acreditamos no Pedra
19/11/2008-00:42:16
Não há como negar que a situação do gaúcho Rodrigo Dornelles no circuito mundial é delicada. Atualmente na 35ª colocação no ranking do WCT e 38º na divisão de acesso, o surfista de Torres necessita realizar uma grande campanha nas etapas da Tríplice Coroa Havaiana para permanecer na elite mundial em 2009.
Para quem foi o melhor brasileiro do mundo no ano passado e sabe de sua história, como é o caso da torcida gaúcha, esse é um desafio possível para ele. Nós acreditamos na virada as 45 do segundo, mas apenas nós, seus conterrâneos da aldeia.
Agora, se depender da matéria escrita por Lewis Samuels no site Surfline.com, a carreira do gaúcho já está encerrada.
Em uma análise minuciosa de todos os integrantes do tour, Samuels detalhou suas opiniões sobre as condições de cada um dos atletas após a realização do WCT Brasil. E suas ponderações sobre Rodrigo Dornelles foram um tanto fatalistas.
Segundo suas palavras, Pedra poderia garantir sua reclassificação ao WCT se vencesse o Pipeline Masters em dezembro, porém ele diz que isso só seria possível “em um universo onde Kelly Slater tenha cabelo, Rob Machado seja careca e onde John MacCain fosse o presidente dos Estados Unidos”.
E não é só isso. No começo do texto, Lewis Samuels menciona que a carreira do “sardentinho”, como ele diz, acabou, afirmando que o torrense está surfando sem vontade.
Num momento em que Rodrigo Dornelles precisa usar de todas as armas ao seu alcance para buscar seus objetivos, era bom que ele lesse esta matéria da Surfline. Com certeza, as palavras deste gringo injetaria uma espécie de indignação positiva no Pedra. Um combustível a mais na sua luta, um anabolizante psicológico poderoso.
Afinal, não é nada bom subestimar a capacidade de um surfista como Rodrigo Dornelles.
Para quem quiser conferir na íntegra, visite: http://www.surfline.com/wct-contest-zone/after-event-10-of-2008-hang-loose-pro-power-rankings-brazil_20413/1/
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A Tita Tavares é linda
31/10/2008-10:05:19
Nós nunca conhecemos suficientemente uma pessoa até convivermos com ela. Qualquer avaliação à distância ou baseada em opiniões de terceiros é no mínimo perigosa. A probabilidade de um erro nas avaliações é grande e quase sempre certa.
Somente o olho no olho e a observação em real time do modus vivendi de outro indivíduo é que pode nos dar o embasamento pleno da crítica justa. Qualquer outra forma mais superficial e sem aprofundamento pode gerar equívocos imperdoáveis.
É como alguém que só tivemos contato por telefone. A voz do interlocutor é a única característica de avaliação que temos ao nosso alcance. Enquanto o ouvido escuta, nossa mente começa o trabalho de imaginação “montando” o biótipo e a personalidade dessa pessoa.
Esse jogo de adivinhação geralmente dá errado. Quando aquela voz se materializa na sua frente, o indivíduo que você criou desaba em uma silhueta totalmente diferente daquela que sua mente criou. E isso também vale para o perfil de personalidade.
Isso não significa necessariamente uma coisa ruim ou que todas as avaliações equivocadas resultem em decepção. Às vezes a surpresa é extremamente agradável.
Isso aconteceu comigo na semana passada.
Tive a oportunidade de conviver por alguns dias com uma das pessoas mais espetaculares que conheci: A tetracampeã brasileira Tita Tavares.
Já a admirava pelo seu talento e história de vida, mas pessoalmente essa cearense me surpreendeu de forma tão positiva, que todas as avaliações do bem que tinha sobre ela acabaram se multiplicando por muitas e muitas vezes.
E logo no primeiro contato tive a certeza de que iria conhecer alguém diferenciado.
Esperava na frente do prédio da RBS onde a acompanharia em um chat quando o meu amigo Rafael Mothcy, um pouco atrasado, largou ela na esquina da Avenida Ipiranga com a Érico Veríssimo.
Quando aquela mulher em tamanho micro-toy desceu do carro e com um suave aceno abriu um sorriso, minha avaliação foi certeira: Eis ali uma pessoa de fibra!!
Depois disso foram praticamente cinco dias de convivência em dezenas de compromissos em rádios, jornais e redes de televisão, onde tive o imenso prazer e honra de assessorá-la.
A cada conversa e entrevista dada, ela revelava seu início de vida miserável na favela do Titazinho, sua luta pelo sonho de ser surfista profissional, os títulos, as decepções, as alegrias...
Ao final deste período de convívio, posso afirmar com a avaliação mais certeira que alguém um dia possa ter feito:
A TITA TAVARES É LINDA!

Tita saboreando um chimas na sede do Clube Surf
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